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a dois tons
a um tom
amores
cartas digitais
desamores
direcções
diálogos
gosto de gostar
olhar a cor
palavras gravadas
portas
provérbios venezianos
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Altos de Chavon
tal como um vale fértil,
também um olhar abriga fendas.
se ao menos um rio me conduzisse a ti…
[o tempo trabalha sempre em sentido contrário
ao meu?]

Sesimbra
a areia gravou os teus passos na memória
olhas o mar, sem conseguires recordar a primeira vez que o contemplaste.
o mesmo mar que se gravou nos passos da areia.
quando o frio voltar
teremos um bom tempo.

Roma
somos eternos, apenas por sermos finitos
é assim também com os momentos.

Lisboa
caro senhor,
devo começar por corrigi-lo. Imagino que se refere a analema e oito meses…
demasiado tempo de facto… mesmo para uma carta.
mas como vejo que gosta de conhecer o tempo das coisas, conto-lhe que nada viaja mais rápido que a luz, a 300 000 km/seg. certamente que o sabe.
mas saberá porque é o céu azul?
esta pergunta, que pode parecer-lhe básica, não se responde com a típica frase: porque sim.
e é nas questões básicas que muitas vezes falhamos com uma resposta.
descanse, que não divago… toda esta introdução filosófica tem como objectivo a resposta á questão que lhe coloco.
foi leonardo da vinci, do qual já muito conversamos, o primeiro a dar uma resposta e a tirar daí consequências. Isso traduziu-se no que chamou de perspectiva atmosférica.
se de dia o céu é genericamente azul, de noite, não o é. e leonardo não teve qualquer problema em perceber que a variante era a luz. o céu é azul devido à interacção da luz com o ar. e assim sendo, este artista formulou a ideia que a nós nos parece óbvia: a cor não é uma característica intrínseca do céu. na verdade a cor não é uma característica intrínseca de nada… espero não o desapontar.
mais tarde, isaac newton, contou-nos que a radiação electromagnética visível (ou o que para tornar o entendimento mais simples, chamamos de luz) não se comporta como o nosso sistema de percepção visual a assume (the optics).
numa experiência que também nos pode parecer simples… fez passar um raio de luz por um prisma de vidro, decompondo-o nas suas sete cores. as cores visiveis da luz, e também do arco-iris: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. é necessário explicar que cada uma destas cores tem um comprimento de onda diferente, e que cada uma viaja a uma velocidade diferente.
o fenómeno que permitiu newton tirar as suas conclusões, chama-se refracção, e a atmosfera funciona como um enorme prisma, que refracta a luz, mas especialmente as ondas mais curtas.
para terminar a minha história preciso ainda de lhe falar de lord rayleigh, que descobriu as quatro leis da difusão da luz. mas como não o quero aborrecer, falo-lhe só da quarta lei, que é a que nos interessa, para sabermos a cor do céu:
a difusão ocorre em proporção inversa com a 4ª potência dos comprimentos de onda. basicamente significa que a difusão se dá em progressão exponencial inversa, e portanto os comprimentos de onda mais curtos, são os mais difundidos.
ora os comprimentos de onda mais curtos pertencem à cor violeta.
a verdade, é que o céu não é azul. o céu é violeta, meu caro senhor.
mas nós, simples mortais, possuímos um sistema de percepção visual que é pouco sensível ao violeta… e assim traduz-nos a cor em azul.
somos enganados desdo momento em que aprendendo as cores, atribuímos uma ao céu.
agora diga-me, há melhor forma de lhe explicar a paixão, do que dizer-lhe que o céu em veneza pode ser verde?
um beijo da sua, sempre ao dispor,
susana
ps: um café também seria bom.

Lisboa, 2008 (Fotografia de Susana Rocha)
minha cara senhora,
analema e meio é muito tempo mesmo para quem viaja a quase
cruzámo-nos na sua exposição do verão passado deixando conversas interrompidas sobre as vanitas e [falta de] chá. não creio nos 15 minutos de fama de andy warhol nem no sic transit gloriæ mundi, por isso deixo-lhe os meus parabéns, passando de imediato ao chá.
audrey flack é autora da estátua cuja réplica em lisboa a sua fotografia documenta. espero que a minha escolha pelo café em oposição à sua preferência pelo chá não suscite divergências irreconciliáveis.
os exercícios de concisão são sempre difíceis sobretudo quando experimentamos inscrever em poucas palavras demasiadas ideias e imagens, por isso diga-me, senhora minha, qual é a importância da paixão.
abraço
jorge

Lisboa (Fotografia de jorge)
és barroco, romantismo e fauvismo
tudo num cocktail explosivo.
és um vulcão submerso.
és fractura com sabor a doce.
és sem-tempo, sem-espaço, com tempo e neste espaço.
não consegues ser meio termo entre a ternura e a acidez.
és o momento.
preferes o cheiro a terebentina, aguarrás e óleos ao de roupa lavada.
não consegues viver existências formatadas.
és sem amarras. és com amarras sentimentais.
és emoção. gritos e sorrisos.
és subtileza e ironia.
não tens regras. tens as tuas.
usas a paixão como combustível para todas as coisas. e afogas-te nela.
és silêncio.
és amor possessivo e feroz.
és ódio apaixonado.
és sonho. criatividade. e trabalhas com isso.
és velocidade calma. e velocidade rápida no pensamento.
preferes a leveza, a dança, o salto à corrida. não gostas de corrida.
fotografas portas, pontes, e relógios de sol… para ti.
caixas de correio para nós, e pormenores para a alma.
pintas imposições, nunca sugestões.
és olhar verde e fixo. incomodativo.
és vento à descoberta de um lugar que guardes teu.
és viajante. nos caminhos e na memória.
és evocativa atenta.
foste bailarina.
foste fumo.
foste crente.
és descrente. Das pessoas sobretudo.
és água. No olhar. E na interpretação. Hermética.
és pedra de nome e de teimosia.
és persistente.
és de ficar… para ti.
confias em primeiras impressões.
desconfias do futuro.
és complexa. odeias o vulgar e a humildade excessiva.
arrogante e orgulhosa.
és murro na mesa, costas a virar e olho que pisca.
és sacana, matreira. e amiga. de uns “happy few”.
és sensível. a praticamente tudo.
és palavra dita e escrita.
és não sabes muito bem o quê...
mas por hoje… basta que sejas.

Bolonha
a representação provoca te(n)são à percepção.
sempre soubeste que não podias confiar na visão,
[nem nas palavras.]
mas…
e o tacto que te oferece as formas ao corpo?
[da alma?]
gh’é più zorni che luganega*
*há mais dias que salsichas

Getxo
ainda nem chegaste.
trazes tanta bagagem.
tanto peso.
pensas quem te espera?
[sabes… continuam a ser as pontes]

Ponte da Barca
tudo o que é pobre…
é directo.
pensei um outro lago.
um outro horizonte.
um outro outono.
[uma paisagem… nunca é só uma paisagem]
ainda recordo a promessa
de me inverteres a temperatura
das imagens.
[gosto de gostar
dos teus olhares]

Lisboa, 2007
no olhar desvanece-se a cidade enquanto se acende a ausência.
hoje venho dizer[te]
bom dia.
bom ano.
[quase como no programa da estação de rádio que rasga a madrugada. minha? tua?]

Siena
o que desconheces é que ainda espero por ti.
que odeio relógios.
instrumentos medidores de tempos e atrasos.
o que desconheces é que não se vive suspenso.
numa torre sem construção.
um dia disse-te…
chove em mim
lá fora.

Fotografia de Susana - Lisboa, 2007
somos imagens presas.
perdidas.
vejo através do tempo e viajas
para longe.
de mim.
[percorro as palavras e desenho o futuro da memória.]

Tejo
enquanto velejas no espaço
há alguém que te lê
[os traços]
a grafia
do ser.
sentes as marés.
e o vento que te desperta a pele.
ainda… (des)esperas olhando pontes.
somos todos barcos procurando equilíbrio.
gostavas de ser…
proa rasgando o mar.

Lisboa
esculpes a tua resistência
nos embates
o que fazes quando o sonho é mais interessante que o dia?

Bávaro
procuraste nas tuas tempestades
a linha em que te enredaste.
toda a tua respiração é feita de espera.
calculada.
esqueceste o início do pensamento quando te sentiste afogar.
o amor é uma convicção.
o pensamento. Indomável.

Saona, 2007 (Fotografia de Susana Rocha)
estás aqui.
suspenso.
desejaste mergulhar.
no sonho?
na vida?
no tempo?
na distancia?
em ti.
abandonas-te no olhar.
perdido.
[desejar é diferente de querer?]

Bávaro
sonhas um espaço diferente.
um lugar pintado em ocres e terras.
queres plural.
sonhas um chão coberto de neve, no inverno.
mãos enlaçadas e cheiro a madeira e pimenta pela casa.
quando deixares de sonhar talvez vejas km de estrada.
temperaturas distintas e as tuas mãos geladas.
quando deixares de sonhar talvez toques
a solidão de cães abandonados.
quando.
sonhar.
deixa.
saudade.
por.
dentro.

Tancos, 2006
viajas para longe daqui. agora.
[nunca para longe de ti]
hélices são asas metálicas
laminas cortantes
lancinando
o ar?
(texto de jorge e susana)

Braga
foi bartolomeu de gusmão um dos pioneiros nas experiências com balões.
contam que conseguiu que um voasse 4metros antes de se incendiar, em 1709.
mas dele, saberás mais tu do que eu….
só em 1783 um aparelho mais pesado que o ar, voou…
numa tentativa dos irmãos jacques e joseph montgolfier.
dizem que chegou aos 2000m de altura…
gosto de ser balão
a rasgar a noite
de encontro a ti.
quando me vires voar
segura-me
quero iluminar-te o rosto.

Marvão, 2007
esta distancia
no olhar.
[na cidadela existo eu. existes tu no olhar?]

S. Gimignano
a música é feita de silêncios.
ainda prefiro a faixa 5 de entre as 23.
agora escolho a
houve já quem tentasse pintar a música
eu pinto-a na pele.
hoje… sem ti?

Fotografia de Susana Rocha, Tarragona - 2006
sabes
que todo o tempo é só um sol.
sabes
o movimento das estrelas.
sabes
o tempo do tempo.
sabes
a noite e o fim.
sabes
o tempo.
[o meu tempo não coincide com o teu.
perdes [te – me]
perco [te – me]
este tempo sem tempo.
agora.]

Mafra
olhando os lugares onde te moves
continuo a espera…
[do lado de cá]
não encontrando portas…
talvez
seja preciso limar janelas.

Fotografia de Susana - Nessebar, Bulgária, 2006
esperamos brisas.
é tudo.
[o silêncio pode ser o espelho das palavras?]

Fotografia de Susana - Portaventura, Espanha, 2007
permanecerei aqui mesmo depois de partires.
[crês?]
o tempo trabalha em sentido oposto de nós.
[creio?]
creio num tempo sem tempo.
[confio?]
neste tempo estás aqui.
[presente]
morro [me]
[amanhã]
em ti.
[acreditar é o mesmo que confiar?]

Évora
“O maior alívio que pode ter um homem atormentado é sentir a esperança de em breve
sair do tormento. Um homem que dorme tranquilamente na prisão, não está na prisão
durante o seu doce sono, e o escravo enquanto dorme não sabe que o é, tal como os
reis enquanto dormem não governam. Há-de portanto considerar aquele que o acorda
como um carrasco que vem privá-lo da sua liberdade e mergulhá-lo de novo na
miséria. Acrescente-se que vulgarmente o prisioneiro que dorme sonha que está em
liberdade e que essa ilusão lhe faz as vezes da realidade.”
Giacomo Casanova, in “História da Minha Fuga das Prisões de Veneza"
não me acordes.
[olho-te.
sonhas também?]

Lousã
por vezes…
não vês o teu reflexo.
mas…
talvez permaneça
o cheiro
a suavidade do toque
o brilho
[das flores.]

Plovdiv
meu caro senhor,
acreditamos nas possíveis realidades que colocamos nas cartas que escrevemos. “acreditamos” é uma visão geral. não apenas minha, nem presumivelmente sua.
por vezes essas realidades em potência, são aniquiladas á nascença, mas… já a carta foi enviada e as possibilidades desejadas chegam ao receptor apenas como fragmentos de impossibilidade.
encaremos isso como uma demonstração de que o mundo gira, e de que as cartas (não digitais) levam o seu tempo a chegar. passo portanto a outro assunto.
suponho-o ocupado demais para a escrita. A mim suponha-me ocupada, nunca demais na pintura.
gostaria de lhe descrever a fantástica liberdade que é, com cinco cores em pigmento e uma quantia considerável de óleo de linhaça, fazer todas as cores existentes no mundo.
criar a cor de uma flor de amendoeira que começa a desabrochar enquanto lhe escrevo, da terra molhada depois de um dia intenso de chuva, ou a lágrima de uma mulher no rasgar da noite.
imagine um cenário onde deseje ambiciosamente estar. perca-se nas cores, apaixone-se por elas… e simplesmente comece a criá-las. dê-lhe nomes só seus, como se fossem memórias de texturas, toques, pele ou almas. o limite é a imaginação.
sabendo que uma folha branca e um lápis podem assustar de morte qualquer um, sugiro-lhe que experimente o óleo, o vidro, a espátula, um trapo, e os pigmentos.
sabe… tenho ouvido com certa frequência referências à sensibilidade das mulheres, de um modo geral. embora existam muitas que são verdadeiros animais, semelhantes a uma imagem que acompanha uma das suas cartas anteriores, devo dizer-lhe que considero a sensibilidade uma enorme virtude.
obviamente os excessos são sempre lamentáveis (e no pó de pigmento também), mas acredite que me parece uma enorme demonstração de amor, a aprendizagem do homem à sensibilidade da mulher. nos esforços para a sequestrar vejo apenas uma selvajaria.
especificaria que não me refiro a lágrimas e dramatismos, ainda que estes em pequenas doses precisem existir como simples exteriorizações. mas como o sei inteligente e perspicaz, sei que me entende sem que me estenda.
não me demoro mais.
deixo-lhe apenas mais um provérbio veneziano:
la fame fa far dei salti, ma l’amor li fa far più alti.*
*a fome faz-nos saltar, mas o amor faz-nos saltar mais alto
um beijo da sua, sempre ao dispor,
susana

Lisboa, 2006 (Fotografia de Susana)
vejo caminhos sobre a distancia.
procuro o trânsito das palavras entre as margens.
[conto-te que estou a um palmo do silêncio.]

Cabul (fotografia de jorge)
gostava de te contar
as vezes que me perco a sentir
e esqueço exteriorizar.
gostava.
mas de novo…
perdi-me no ar…
[o defeito da
(minha?)
intensidade]